top of page

Anatomia cirúrgica da valva mitral: conceitos básicos e armadilhas cirúrgicas.

Foto do escritor: Laio  WanderleyLaio Wanderley

Atualizado: 20 de mar.

A cirurgia da valva mitral é uma das mais corriqueiras na rotina da cirurgia cardíaca, havendo diversas técnicas para sua reparação. O conhecimento anatomico e funcional das cúspides, anel e aparelho subvalvar mitral (cordoalhas e músculos papilares) torna-se fundamental para o sucesso da estratégia cirúrgica e técnica escolhida (seja convenvional ou transcateter).


Outro ponto importante é o entendimento das estruturas que circundam o campo cirúrgico de maneira a evitar as armadilhas que provocam as complicações.


Dessa forma, assim como em qualquer outro procedimento, conhecer os conceitos anatômicos básicos é importantíssimo para o sucesso da cirurgia, tendo esse post o objetivo principal descrever tais conceitos e armadilhas.

Nesta imagem, já podemos contemplar várias estruturas vitais que circundam o anel mitral que são verdadeiras armadilhas cirúrgicas: a valva aórtica às 12 horas, o nó AV às 2-3 horas, o seio coronário por volta das 4-5 horas e a artéria circunflexa, que contorna posteriormente o anel, especialmente próximo na comissura anterolateral (9-10 horas).

Lesão nessas estruturas pode provocar insuficiência aórtica, bloqueio átrio-ventricular e infarto agudo do miocárdio.


Fonte: Referência 03


FOLHETOS E ANEL MITRAL

Na imagem acima, podemos perceber claramente o anel mitral como um verdadeiro alicerce para os folhetos, fazendo parte do esqueleto fibroso do coração. Também é possível observar a continuidade mitroaórtica, uma verdadeira cortina que une as estruturas mitral e aórtica, que pode ser alvo da endocardite.

Fonte: Atlas of Cardiac Anatomy, Digital Edition © 2022 Shumpei Mori, Kalyanam Shivkumar,


  • A válvula mitral é composta por dois folhetos—anterior e posterior—separados por duas comissuras (anterolateral e posteromedial).

  • As cúspides da valva mitral são mais largas , mais espessas e mais fortes do que a valva tricúspide.

  • O anel mitral faz parte do esqueleto fibroso do coração, correspondendo a uma estrutura fibrosa e densa que serve de alicerce para as valvas e fibras miocárdicas.


Vídeo didático em 3D mostrando o esqueleto fibroso do coração.
  • A cortina mitroaórtica é um espessamento fibroso que separa os folhetos da valva aórtica da própria valva mitral.

Na imagem acima, vocês poderão perceber (em desenho e no eco) a relação anatômica de continuidade entre o folheto anterior da mitral, a cortina mitroaórtica e os folhetos da valva aórtica.

Fonte: Referência 04


Cúspide Anterior e porção anterior do anel mitral

  • O folheto anterior tem formato trapezoidal, sendo mais largo e ocupando cerca de 1/3 da circunferência do anel.

  • Conforme o livro "Carpentier's Reconstructive Valve Surgery" , o folheto anterior fica inserido na cortina mitroaórtica, com uma relação íntima com a valva aórtica.

  • Essa porção do Anel é menos propensa a dilatação quando comparado a porção posterior.

  • Serve como base para a escolha para a escolha do tamanho do anel protético mitral que será usado na anuloplastia.

  • Armadilhas e questões práticas:

    • Devemos tomar cuidado com pontos profundos na na região do anterior do anel, para não gerar insuficiência aórtica por retesamento das cúspides.

      • Distenção do coração e aorta flácida durante a cardioplegia ou após a correção valvar mitral podem ser sinais de insuficiência aórtica.

    • O folheto anterior muito redundante é um fator de risco para o movimento sistólico anterior da valva mitral após plastia, promovendo obstrução dinâmica da via de saída do ventrículo esquerdo.

    • A obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo (VSVE) pelo folheto anterior da valva mitral é uma complicação grave durante o intevenção transcateter da valva mitral (TMVR).


Cúspide Posterior e Porção posterior do anel mitral

  • O folheto posterior é o mais estreito dos dois e abrange dois terços da área do anel.

  • Relação com a parede posterior do coração

  • O anel posterior classicamente é o que mais dilatada nas cardiopatias estruturais.

Armadilhas e questões práticas:

  • A coronária circunflexa (CX) margeia o perímetro desse anel. Pontos profundos nessa região pode lesionar a CX provocando infarto agudo do miocárdio,

    • Dificuldade em sair de Bypass, arritmias ventriculares, síndrome de baixo débito e alterações eletrocardiográficas podem ser sinais dessa complicação.

  • Trabalhos anatômicos mostram que a relação mais próxima entre a CX e o anel mitral é na região da comissura anterolateral se distanciando a medida que a artéria percorre o sulco atrioventricular no sentido posterior. Portanto durante a passagem dos pontos na região anterolateral, deve-se redobrar o cuidado.

Fonte da imagem: Referência 08
Fonte da imagem: Referência 08

  • A altura do folheto posterior está entre 10 e 15 mm na maioria dos casos

    • Se a altura de qualquer segmento posterior for igual ou superior a 20 mm, deve ser reduzido durante a plastia mitral para evitar SAM.

    • Por outro lado, no tratamento percutâneo da insuficiência mitral (uso de MitraClip, por exemplo), como o dispositivo precisa "agarrar" os folhetos, um comprimento curto (<7-5 mm) pode tornar o procedimento mais complexo.


Sobre a anuloplastia mitral - o quanto contemplar de anel?


  • Na anuloplastia Mitral um anel ou uma banda de pericárdio é colocada entre as duas comissuras contemplando 60-70 % do anel  

  • Plastia entre os dois trigonos fibrosos contempla 75 % do anel mitral com alguns trabalhos mostrando melhores resultados. Idéia é deixar uma menor porção do anel anterior passível de dilatação.

Os pontos em vermelho correspondem aos trígonos fibrosos, que são os limites da cortina ou continuidade mitroaórtica. Notem que a plastia entre os dois trigonos fibrosos irá contemplar mais anel.


  • O quanto de anel contemplar durante a anuloplastia é motivo de discussão, havendo diversos tipos de próteses (completa vs. incompleta; rígido, semi-rígido, maleável). Porém, não existe nenhuma evidência forte de superioridade e um modelo de um anel sobre o outro.

Nas imagens acima, podemos notar a "Anatomia Radiológica" dos diferentes tipos de anel mitral (formatos e estrutura) que podem ser usados para anuloplastia. O conceito do seu uso é: ajustar o anel para seu formato original, fixá-lo firmemente e melhorar a coaptação das cúspides. No entanto, um detalhe importante é o seguimento a longo prazo.

Com o advento do tratamento mitral transcateter (valve-in-ring, por exemplo), o conhecimento das propriedades e dimensões da prótese é fundamental para auxiliar o cirurgião na seleção do dispositivo transcateter mais adequado e na sua implantação. Podemos observar que alguns anéis (incompletos, rígidos) podem gerar maior dificuldade em casos de necessidade de um procedimento transcateter, o que justifica os resultados inferiores do valve-in-ring em algumas publicações

Fonte das imagems: Referência 05


SEGMENTAÇÃO DA VALVA MITRAL


Didaticamente as cuspides são divididas em seis segmentos sendo útil para descrição cirúrgica e ecocardiográfica.

  • A: cúspide anterior dividida de 1 a 3 , no sentido anterolateral para posteromedial

  • P: cúspide posterior dividida de 1 a 3 , no sentido anterolateral para posteromedial

    • P2 é o local de maior incidência de prolapso mitral relacionado a ruptura de cordoalha de etiologia degenerativa.

Fonte: Referência 02
Fonte: Referência 02
Imagem de ECO 3D mostrando a segnmentação da valva mitral. "Cada folheto é subdividido em três scallops distintos, sendo os scallops A1 e P1 os mais próximos da apêndice atrial esquerdo."
Imagem de ECO 3D mostrando a segnmentação da valva mitral. "Cada folheto é subdividido em três scallops distintos, sendo os scallops A1 e P1 os mais próximos da apêndice atrial esquerdo."

Fonte: Referência 06

As imagens acima mostram o prolapso de P2 (um dos locais mais frequentes na etiologia degenerativa) de forma didática e em um belo ECO 3D (referência 07). As informações relacionadas à anatomia dos folhetos e seus segmentos são fundamentais para o planejamento cirúrgico, seja na abordagem convencional ou transcateter.

Resumo das armadilhas da cirurgia convencional:

 A imagem acima ilustra bem a prática cirúrgica. Pontos muito profundos aplicados nas regiões descritas na imagem podem gerar complicações, às vezes graves e irreversíveis.

De forma didática, na relação relógio na visão do cirurgião vs. estrutura (armadilhas), temos:

  1. Às 12 horas – valva aórtica;

  2. Entre 2 e 3 horas – sistema de condução;

  3. Entre 4 e 6 horas – seio coronário;

  4. Entre 6 e 10 horas (próximo a comissura anterolateral) – artéria circunflexa (CX).


Anatomia patológica - valva mitral reumática.

Vídeo mostrando o aspecto cirúrgico da valva mitral após a retirada das cúspides em bloco. Muito cuidado deve ser tomado com as estruturas adjacentes ao retirar a valva e ao dar pontos no anel mitral.

Neste caso patológico, o leitor poderá notar Espessamento e fusão das cúspides e comissuras, Fusão e encurtamento das cordoalhas tendíneas e o aspecto em boca de peixe, características da valva mitral reumática. 

 


MÚSCULOS PAPILARES

As cuspides são sustentadas por 02 músculos papilares.

  • Anterolateral

    • Cabeças

      • Mural

      • Aórtica

      • Comissural

    • Geralmente único com um sulco na linha média

    • Normalmente irrigado pela DA e CX

Essa dupla irrigação protege esse músculo em comparação ao posteromedial que possui perfusão majoritária pela CD. Dessa forma a Regurgitação isquêmica ocorre mais na cúspide posterior.


Imagem didática que mostra o suprimento sanguíneo coronariano do miocárdio.
Imagem didática que mostra o suprimento sanguíneo coronariano do miocárdio.
  • Posteromedial

    • Cabeças

      • Mural

      • Aórtica

      • Comissural

    • É múltiplo ou bífido ou trífido

    • Geralmente nutrido pela CD - mais propenso a complicação mecânica.

Na sístole os músculos papilares se contraem encurtando as cordoalhas (cordas tendíneas) e cúspides de forma a evitar prolapso.

Fonte: Referência 10
Fonte: Referência 10

CORDAS TENDÍNEAS

As cordas tendíneas impedem o prolapso dos folhetos da valva mitral e garantem sua coaptação adequada. Sua ruptura, alongamento ou encurtamento pode levar à insuficiência mitral.

  • Tipos

    • Primária

      • Sai do papilar e se insere nas cúspides

    • Secundária

      • Há uma ramificação

    • Terciária e quartenaria

      • Até se inserir na valva há 3 ou 4 ramificações


Fonte: referência 11.
Fonte: referência 11.

Referências

1. GUEDES, Marco Antonio Vieira et al . Plastia valvar mitral pela técnica do Duplo Teflon: análise do remodelamento cardíaco pela ecocardiografia tridimensional. Rev Bras Cir Cardiovasc, São José do Rio Preto , v. 25, n. 4, p. 534-542, Dec. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-76382010000400018&lng=en&nrm=iso>. access on 29 Aug. 2017. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382010000400018.

2. Kirklin/Barratt-Boyes cardiac surgery

3. Khonsari, Cardiac Surgery. Safeguards and Pitfalls in Operative Technique 5 ed. Philadelphia 2017.

4.Pathoanatomy of Mitral Regurgitation Karagodin, Ilya et al. Structural Heart, Volume 4, Issue 4, 254 - 263

5.Pirelli L, Hong E, Steffen R, Vahl TP, Kodali SK, Bapat V. Mitral valve-in-valve and valve-in-ring: tips, tricks, and outcomes. Ann Cardiothorac Surg. 2021 Jan;10(1):96-112. doi: 10.21037/acs-2019-mv-169. PMID: 33575180; PMCID: PMC7867421.

6.Quader, N., Rigolin, V.H. Two and three dimensional echocardiography for pre-operative assessment of mitral valve regurgitation. Cardiovasc Ultrasound 12, 42 (2014). https://doi.org/10.1186/1476-7120-12-42

7.Front. Cardiovasc. Med. , 09 January 2023 Sec. Heart Valve Disease Volume 9 - 2022 | https://doi.org/10.3389/fcvm.2022.1050476

10.Barry, M., Gun, M., Hun-Chabry, Y. et al. Anatomical and biometric study of the mitral valve apparatus: application in valve repair surgery. J Cardiothorac Surg 18, 141 (2023). https://doi.org/10.1186/s13019-023-02232-2

Livros:

Atlas of Cardiac Anatomy, Digital Edition © 2022 Shumpei Mori, Kalyanam Shivkumar,

Carpentier, Alain, M.D.Carpentier’s reconstructive valve surgery / Alain Carpentier, David H. Adams, Farzan Filsoufi ;

Posts Em Destaque
Posts Recentes
bottom of page